MIT Publica Três Hipóteses para Destruir o Bitcoin

A MIT Technology Review, publicação da universidade de mesmo nome, publicou na terça-feira (24) um artigo intitulado “Vamos Destruir o Bitcoin”. No texto, a autora Morgen Peck aponta três hipóteses que ela acredita que podem levar o Bitcoin à morte.

Antes de Peck iniciar seus argumentos fundamentados em “três cenários nos quais o Bitcoin poderia ser destruído a ponto de se tornar irrelevante”, ela disserta sobre a criptomoeda.

Em um breve resumo Pack enaltece o criador do Bitcoin, Satoshi Nakamoto, e diz que ele serviu ao mundo uma moeda livre para todos devido à sua descentralização, privacidade e sua tecnologia infalsificável.

A introdução do artigo relata também a dominância do Bitcoin, — principalmente por ele ter valor de mercado três vezes a mais que o maior concorrente — a existência das 24 milhões de carteiras ativas e também as mudanças de US$ 1 para quase US$ 20 mil entre 2011 e 2017.

Pack antecede os cenários da sua teoria evidenciando que, embora o Bitcoin seja uma tecnologia segura, ele não oferece nenhuma defesa contra a ideia da própria tecnologia.

“Ninguém pode copiar um Bitcoin, mas qualquer um pode copiar a ideia do Bitcoin”.

Um governo, uma corporação, ou até mesmo pessoas comuns podem usar a ideia do Bitcoin para torná-lo inútil.

Cenário I – Governo assume o controle

A autora idealiza um momento do futuro. Usaremos o ano de 2030 como exemplo, onde todas as moedas oficiais dos governos de todo o mundo são digitais. Ela usa um nome fictício para essas criptomoedas: “Fedcoin”, que sugere “moeda nacional”.

Nesse horizonte os governos conseguiram, com sucesso, melhorar a eficiência do Bitcoin. Isso praticamente eliminou a maioria das altcoins.

Numa segunda-feira, por exemplo, um algoritmo entra em sua carteira digital e subtrai exatamente o valor dos seus impostos devidos.

Essa carteira é uma versão digital daquelas contas correntes das quais você ainda tem algumas vagas lembranças, quando, na ocasião, os bancos centrais começaram trocar o papel-moeda por ‘fedcoins’.

“Claro, você ainda tem algumas notas de dólar, mas eles estão guardados como lembranças”, descreve a autora.

O artigo cita os responsáveis por essa ideia de ‘moeda nacional’, que começou com David Andolfatto, um pesquisador do Federal Reserve Bank de St. Louis, Missouri, Estados Unidos, e mais tarde aprimorada por Sahil Gupta, estudante da Universidade Yale, Connecticut, estado também americano.

E como seria na prática?

As transações seriam registradas na blockchain como acontece com o Bitcoin, mas em vez das transações serem verificadas como é hoje pela rede de nodes, o trabalho ficaria por conta de instituições certificadas pelo banco central.

Essa instituição então agiria como um juiz batendo o martelo, verificando as entradas, unificando os blocos, e, em uma versão ‘master’ do blockchain, tornaria a transação pública.

Para usar ‘fedcoins’ o cidadão provaria sua identidade e criaria uma carteira no banco central ou em um banco afiliado. Assim poderia trocar seus dólares pela criptomoeda nacional na proporção de um para um.

Este esquema, lentamente, seria responsável pelo total desaparecimento do dinheiro físico.

“Imagino que as pessoas se sentiriam confortáveis no dia a dia comprando um café ou uma entrada de cinema, percebendo que isso é mais prático, seguro e muito mais barato”, diz ​​Peck.

O artigo também cita uma simulação feita pelo banco central do Canadá, em 2016, parecida com essa situação. Eles usam um blockchain similar ao do Ethereum.

O que eles estão descobrindo é que uma versão de moeda estatal pode igualar ou até melhorar a eficácia do Bitcoin, com processamento mais rápido devido ao fato do governo estar por trás do sistema (isto sugere uma certa oposição ao sistema P2P). Esta eficácia pode resultar na economia de muito dinheiro.

“Não é surpresa que todos os principais bancos centrais do mundo tenham uma equipe que esteja analisando o engajamento em uma moeda digital nacional baseada em blockchain”.

Cenário II:  Facebook ‘convence’ seus usuários

O artigo novamente remete o leitor para o futuro, mas desta não para um tão distante porque, segundo a autora, algo pode acontecer de fato a qualquer momento se ‘um certo grupo de pessoas’ estiverem antenados e juntos.

Imaginemos que neste cenário o gigante das mídias sociais, Facebook, com seus 2 milhões de usuários em todo o mundo criou a “Facecoin”.

É provável que tamanha popularidade possa ‘derrubar’ o Bitcoin, partindo do acontecimento recente do Telegram, com 200 milhões de usuários, que lançou sua própria criptomoeda, a ‘Gram’. Neste sistema os usuários podem enviar ‘grams’ uns para os outros para pagar serviços dentro da plataforma.

Outra alternativa à criação do ‘facecoin’ seria o Facebook assumir o controle do Bitcoin de uma tal forma traiçoeira.

Considere a tríade da rede do Bitcoin numa transação: usuário, mineradores, nodes. O usuário faz uma solicitação de transação, os mineradores processam e a registra no blockchain e os nodes garantem que tudo esteja pronto. Todos eles estão usando software aberto, e de modo transparente que os mantém unidos em uma única versão.

Uma parte da rede pode decidir a qualquer momento usar outra versão do software Bitcoin com regras diferentes e formar uma moeda paralela, como aconteceu na criação do Bitcoin Cash.

Se o Facebook convencesse uma grande parte dos usuários, por trás da tríade, a rodarem sua própria versão, a rede social certamente controlaria as regras. Assim poderia então remodelar o Bitcoin como uma versão corporativa do ‘fedcoin’ descrito acima.

Outra forma, ainda melhor, a qual não necessitaria de apelo a ninguém, seria o Facebook assumir o Bitcoin antes mesmo que a maioria das pessoas pudesse perceber.

Segundo a autora do artigo, os passos para esse feito seriam os seguintes: Construir uma carteira hiper segura e de fácil operação na plataforma; Integrá-la, da noite para o dia, às 2 bilhões de contas da rede.

Na manhã seguinte os usuários vão navegar e observam um pequeno botão que diz “Envie Bitcoin”. Dessa forma seria eliminado todos aqueles trâmites que temos que fazer para criar uma carteira.

Com certeza teria migração de fundos em massa por se tratar do Facebook. E quem ainda não conhece a tecnologia já teria pela frente como ganhar seus primeiros ‘satoshis’ oferecidos gratuitamente pela rede.

Isso poderia ser através de visualizações de anúncios, por exemplo, ou permitindo a plataforma usar o poder de mineração do seu computador dividindo os ganhos.

Efetivado o grande plano, o Facebook agiria de forma natural, aguardando os usuários a se familiarizar com o novo botão até que eles percebam que a partir dali, daquele botãozinho, pode se pagar algo ou enviar dinheiro instantaneamente para alguém. A empresa ficaria ‘de boa’, dando tempo para os eles, tempo suficiente para viciá-los.

Pronto! Facebook assume controle total do Bitcoin. Agora a maioria de seus usuários e aqueles que possuem bitcoin estão usando seu software.

Nesse momento a rede social teria o mesmo poder de um banco central, podendo fazer o que quisesse com sua moeda.

Cenário III: Tokenização em massa

A terceira maneira de tornar o Bitcoin inútil é apostar na progressão natural do que já estamos presenciando hoje, a tokenização.

Imagine que você está na fila do supermercado. Dentro da carteira digital do seu telefone além de ‘fedcoin’, ‘facecoin’, ‘applecoin’, ‘toyotacoin’ etc, você também tenha a moeda específica daquele estabelecimento, mas você opta por pagar com uma fração de uma ação da Apple, por exemplo, e você a envia como moeda para a carteira do comerciante.

Para essa alternativa à queda do Bitcoin, Morgan Peck cita a frase do professor de finanças da Duke University (Carolina do Norte, EUA), Campbell Harvey:

“Minha visão do futuro é que haveria milhares, se não milhões, de formas de pagar por coisas”.

Resumindo a ideia de Harvey, o artigo expõe uma situação na qual, se o FED dos Estados Unidos, por exemplo, criar um token representando o país, não há nada que impeça as pessoas de fazerem com ele o que bem desejarem.

Por qual motivo aquele comerciante não aceitaria o pagamento? Pois tanto faz ter barras de ouro num cofre ou milhões de ações da Apple numa carteira digital.

Esse “futuro” já é realidade. A tendência entre as startups de blockchain é construir serviços que funcionem desta forma. Esses tokens não são diferentes dos gift cards (vale-presente) que as empresas usam para bajular seus clientes.

Facilitar negociações entre ativos digitais distintos exigiria uma inovação em todo o ecossistema. Não é tarefa fácil, mas provavelmente já tem muita gente trabalhando essa ideia.

“Você precisa encontrar alguém para trocar sua vaca por quatro cabras. Se há uma rede que permite a troca de vários animais distintos sua troca será muito mais rápida”, palavras do professor, segundo Peck.

O que restaria ao Bitcoin?

Sob esses cenários haveria vantagem para o Bitcoin original?

Peck acha que ‘as transações de Bitcoin são anônimas e impossíveis de censurar’ talvez seja a única coisa que os entusiastas do Bitcoin afirmam ser a maior força da tecnologia. mas essas qualidades desapareceriam no momento em que as transações fossem cedidas a um banco central ou ao Facebook ou a uma rede de corretoras que coordenasse a troca de ativos.

Se tudo o que o Bitcoin pode oferecer é a resistência à privacidade e à censura, então temos que perguntar: Isto é real neste momento?

Não há nomes reais armazenados no blockchain do Bitcoin, mas ele registra todas as suas transações. E toda vez que você a faz ainda é possível vincular informações que cheguem à sua identidade.

É sabido que a partir de documentos vazados por Edward Snowden a Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) tem procurado uma forma de conectar a atividade do blockchain do Bitcoin com pessoas no mundo físico.

A NSA vem utilizando cabos de fibra ótica, monitorando a atividade na Internet e atraindo pessoas para plataformas comprometidas, as quais prometem falsamente proteger sua privacidade. É assim que coletam dados e vinculam endereços a nomes e a identidades reais.

Se os governos checarem bem, perceberão que o Bitcoin está nas mãos de uma pequena parcela de pessoas entre os mais de 7 bilhões de indivíduos no mundo, que são os mineradores. E alguns já estão quase desistindo por conta de tanta perseguição.

Os primeiros entusiastas do Bitcoin se apegaram ao sonho de uma moeda mundial única, privada, livre para todos e sob controle das massas, mas 7 bilhões de pessoas que ainda não o usam podem não estar nem aí para isso.

Se as criptomoedas forem amplamente usadas serão os hábitos das massas e não os desejos dos primeiros adeptos do Bitcoin, que determinam o que acontecerá segundo a visão de Satoshi Nakamoto.

A autora: Morgen Peck é jornalista freelancer e escreve sobre assuntos relacionados a criptomoedas, há seis anos, para vários canais de notícias, como Coindesk, MIT e Scientific American. É defensora do equilíbrio de gênero e da democracia dentro do ecossistema criptográfico.

A MIT Technology Review foi criada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1899. A instituição é ranqueada entre as maiores universidades do mundo.

Via Portal do Bitcoin.

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